A questão que ninguém para de fazer

A forma correta é analisar, com s. A versão com z, "analizar", não existe no português — é uma influência direta do espanhol ou um erro de digitação recorrente. O problema é que a pronúncia em várias regiões do Brasil faz com que o som dos dois grafemas seja praticamente idêntico, então o ouvido não ajuda. Só a grafia padrão resolve. Isso cria uma confusão prática que eu vejo todo dia em revisões de texto. O erro não aparece só em redações de estudantes. Aparece em e-mails corporativos, em descrições de produto, em documentação técnica. A pessoa não está tentando errar, está seguindo a lógica do que ouve. E o que ela ouve não é diferente de um jeito que a grafia sugere.

analisar ou analizar como se escreve

O verbo vem do grego analetheuein, que significa "não mentir", "dizer a verdade". A raiz grega entra no português com s, não com z. Palavras da mesma família confirmam isso: análise, analista, analítico. Se existir um s em todas essas formas derivadas, o verbo também leva s. Essa é a regra mais prática que existe e é a que eu uso quando preciso decidir rápido. O Acordo Ortográfico de 1990 não mudou nada nisso. A grafia já era analisAR. Antes e depois do acordo, a forma com z era incorreta. O que o acordo fez foi uniformizar outras questões, como o uso do trema e algumas letras mudas, mas manteve o s aqui.

Na prática, o erro aparece com mais força em duas situações. A primeira é em textos ditados por software de reconhecimento de voz. O Google Docs e o Apple Dictation frequentemente transcrevem como "analizar" porque o modelo foi treinado predominantemente com Corpus em espanhol para essa sequência fonética. Eu já corrigi esse erro em relatórios inteiros depois que uma equipe inteira ditou o documento. A solução que funciona é ditarem com o modo de português brasileiro selecionado e, após a transcrição, rodarem um corrector ortográfico configurado para pt-BR. O corretor do Word às vezes passa permissão no erro se o idioma estiver mal configurado. Vale checar. A segunda situação é mais silenciosa. É a transferência de calques do espanhol em textos acadêmicos e jurídicos. Quem tem contato frequente com literatura em espanhol acaba produzindo "analizar" sem perceber. Já vi pareceres jurídicos com esse erro e a correção exigiu um revisão linha por linha, não apenas um busca e substitui. O corrector automático muitas vezes não sinaliza porque o dicionário integrado inclui a forma espanhola como variante de língua estrangeira, mas não como opção válida em português.

Um detalhe que poucos percebem: o substantivo análise leva acento porque é proparoxítona. O verbo analisar não leva acento. Algumas pessoas, ao escreverem apressadamente, acentuam o i do verbo, produzindo "analisár". Isso também está errado. O verbo é paroxítona terminada em r, e essas não levam acento gráfico. Outro ponto que merece atenção: o prefixo anti- e o prefixo ana- são cosas completamente diferentes. "Analisar" tem o prefixo grego ana, que indica separação, elevação, distribuição. "Anti-análise" seria algo contra a análise. Confundir a etimologia leva a erros de interpretação, não só de grafia. Em textos técnicos, essa distinção pode mudar o sentido de um parágrafo inteiro.

Existe uma exceção que gera confusão. Em português europeu, a pronúncia do s antes de i ou e pode soar maisde um "sh" suave, enquanto no Brasil soa como "s" normal. Em ambos os casos, a grafia permanece com s. A variação fonética não altera a ortografia. Linguistas gostam de apontar isso, mas para quem só quer escrever certo, basta memorizar a regra das palavras derivadas. Minha recomendação prática é simples. Quando tiver dúvida entre s e z nessa raiz, olhe para a forma substantiva. Se o substantivo tem s, o verbo também tem. Análise leva s. Logo, analisar leva s. Se o substantivo fosse análise com z (e não é), aí sim o verbo poderia ser diferente. Mas o substantivo nunca tem z. Esse é o atalho que funciona em 99% dos casos.

O pior cenário é depender exclusivamente de autoexplicação. Se você escrever "analizar" num documento oficial, o corretor pode não marcar. O destinatário pode não notar. Mas em contextos formais, concursos, publicações acadêmicas e revisão profissional, o erro é levado a sério. Eu já vi candidatos eliminados por erros ortográficos nesse nível de trivialidade. Parece cruel, mas é a realidade. Resumindo de forma que fique claro: a grafia correta é analisAR. Não existe analizar em português. Ponto.