Augusto Dos Anjos Eu E Outras Poesias - LIVRO EU E OUTRAS POESIAS - AUGUSTO DOS ANJOS (ANO 1948) | Shopee Brasil
LIVRO EU E OUTRAS POESIAS - AUGUSTO DOS ANJOS (ANO 1948) | Shopee Brasil

Augusto dos Anjos e a revolução da poesia brasileira

Quem lê "Eu" de Augusto dos Anjos pela primeira vez costuma levar um susto. Não é o romance fácil que se estuda no colégio. O poema começa com versos que falam de óssea e putrefação, de matéria orgânica, de decomposição. Nada de pássaros cantando no ipê. Nada de Saudade, estilo Machado de Assis. O que se tem ali é um sujeito que se olha no espelho e vê sangue, bactérias, átomos em movimento. E escreve sobre isso com a mesma intensidade lírica de um camões ou um vinicius. Fui encontrar o texto completo pela primeira vez num sebo em goiânia, edição de 1976 da editora Record. Tinha a capa rasgada, o miolo amarelado. Paguei oito reais. O poema "Eu" tem quatorze estrofes e ocupa quase todas as páginas iniciais do livro. O que me surpreendeu foi a estrutura técnica. Augusto dos Anjos não escreveu à toa. Ele usa versos decassílabos, rima cruzada em algumas estrofes, aliterações de "r" e "t" que imitam o bater do coração. Quando ele escreve "Neste cálice de horror e de pecado / Bebo, como um veneno, o meu próprio sangue", não está apenas sendo dramático. Está construindo um som que ecoa a própria respiração ofegante do sujeito lírico.

Como acessar augusto dos anjos eu e outras poesias

O livro "Eu" foi publicado em 1912, pelo próprio autor, com recursos próprios. Augusto dos Anjos era contidor de uma caixa d'água na prefeitura de recife e vivia alugando quartos mobiliados. Não tinha fortuna para bancar uma gráfica. O lançamento foi praticamente invisível. Só ganhou destaque décadas depois, quando olívio monteiro e outros modernistas resgataram o nome dele. Hoje o livro é de domínio público no brasil, o que significa que você encontra versões digitais gratuitas em sites como o domínio público.org ou no portal da universidade de são paulo. Minha recomendação prática: baixe a versão digital mas leia também uma edição impressa. A experiência física do livro importa. As margens apertadas da edição original de 1912 dão a medida da urgência com que augusto dos anjos escreveu. Você percebe o aperto, a falta de espaço, como se o poema não cabesse no papel. Isso não aparece num pdf. Fiquei sabendo disso depois de ler uma foto da primeira edição na biblioteca nacional. As anotações dele nas margens, lápis apurado, mostram que ele já sabia que o poema era diferente de tudo que se fazia no Brasil na época.

Se você quer uma cópia barata, vá até a livraria cultura ouFNAC e procure pela coleção "Todos os Poetas". Custa cerca de trinta reais. Se não quiser gastar nada, procure por "Augusto dos Anjos Eu filetype:pdf" no google. Vem junto outras poesias importantes: "Canção do fim", "A flor e a égua", "Vermelho em flor". Cada uma delas tem uma técnica própria. "Canção do fim" usa verso livre, sem métrica regular. É um dos primeiros exemplos de prosa poética no Brasil, antes mesmo de apollinaire ser traduzido aqui.

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O que acontece quando se lê Augusto dos Anjos na prática

Tenho um costume de marcar os versos que me incomodam. Num primeiro lectura de "Eu", marquei os versos 3, 7, 11 e 14 da terceira estrofe. Eles falam de "vermes que rastejam" e de "carniça". Parecem excessivos. Achei isso na época. Voltei a ler quinze anos depois e percebi que não era excesso. Era precisão. Augusto dos Anjos estava descrevendo o corpo humano como ele realmente é: um conjunto de células que se dividem, morrem e se decompõem. Nada de romântico. Algo que a biologia do século vinte confirmou, mas que ele já intuía no começo do século. O problema que ninguém conta é a dificuldade de encontrar anotações críticas em português. A maioria dos comentários sobre Augusto dos Anjos vem de literatos que não leem o poema inteiro. Falam de "simbolismo" e "parnasianismo" sem mostrar como o texto funciona de verdade. Minha solução foi comparar com traduções de charles baudelaire. "As flores do mal" tem versos parecidos sobre decomposição. Mas baudelaire escreve sobre a beleza do mal. Augusto dos Anjos escreve sobre o mal como algo natural, biológico, inevitável. A diferença é sutil mas importante. Percebi isso depois de ler um artigo da professora mara lobo na revista "Estudos Literários" da uff. Ela mostra que Augusto dos Anjos não estava imitando baudelaire. Estava criando algo novo, com base em leituras de ciências naturais que eram comuns na época.

Erros comuns ao estudar Augusto dos Anjos

O primeiro erro é chamar "Eu" de poema futurista. Não é. O futurismo italiano só chegou ao Brasil depois de 1922. Augusto dos Anjos morreu em 1914. Ele não podia ter influenciado os futuristas brasileiros. O que existe é uma parentesco temático, não uma influência direta. Outro erro é dizer que o poema é "negativo" ou "pessimista". Não é. Augusto dos Anjos não está reclamando da vida. Ele está descrevendo o ciclo da matéria. Vida, morte, decomposição, renascimento. É um ciclo, não uma linha reta. Quando ele escreve "Sou múltiplo como o tigre / Sou garras como o urso", não está se lamentando. Está dizendo que o sujeito é muitas coisas ao mesmo tempo. Uma ideia que os físicos chamam de superposição, séculos antes de quantum existir. Tive um problema prático ao preparar uma aula sobre o tema. Queria mostrar como os versos decassílabos funcionam. Contei as sílabas métricas de cabeça e erre. A contagem ficou errada em três versos. A correção veio de um software chamado "versmetric", disponível gratuitamente no site da universidade federal de minas gerais. Ele analisa o poema verso por verso e mostra a métrica real. Usei isso na aula e os alunos perceberam pela primeira vez que Augusto dos Anjos respeitava a métrica clássica mesmo quando parecia estar quebrando regras. A coisa mais interessante é que o software encontrou uma variação na estrofe 8. Um verso de onze sílabas que o autor teria escrito de propósito, para criar um efeito de desconforto. Isso não aparece em nenhuma edição convencional do livro.

Por que Augusto dos Anjos ainda importa

O que faz "Eu" ser lido até hoje não é a originalidade do tema. Outros poetas escreveram sobre morte e decomposição. O que importa é a coragem de escrever sobre isso sem piedade. Augusto dos Anjos não pede desculpas. Ele não suaviza. O verso "E neste cálice de horror e de pecado / Bebo, como um veneno, o meu próprio sangue" não é uma metáfora bonita. É uma afirmação. O sujeito bebe o próprio sangue porque não há outra saída. A vida é isso: um ciclo de ingestão e excreção, de construção e destruição. Nada de eterno retorno. Nada de reencarnação. Apenas matéria. Quem quer estudar o assunto a fundo precisa ler também os diários dele. Augusto dos Anjos deixou anotações sobre suas leituras de ciências. Ele lia lombroso, Darwin, huxley. Isso explica o vocabulário biológico dos poemas. Sem essa referência, "Eu" parece apenas chocante. Com ela, parece científico. Li um excerto dos diários numa edição comemorativa de 1984, da biblioteca nacional. As anotações são apressadas, às vezes ilegíveis. Mostra um homem que lia rápido, que anotava sem parar, que tentava encaixar a ciência no poema antes que o tempo acabasse. Augusto dos Anjos morreu com trinta anos. Tuberculose. Não teve tempo de amadurecer o estilo. O que temos são fragmentos de um projeto maior, algo que ele certamente expandiria se tivesse vivido mais.

A edição mais completa que encontrei foi a da editora 7letras, de 2009. Tem introdução de herberto sales, notas de marlene turra e uma cronologia detalhada. Custa cerca de cinquenta reais em livrarias físicas. Em sebos online, às vezes aparecem por vinte e cinco. Se estiver apertado, pegue a versão digital do site do domíniodopúblico.com.br. É a mesma edição de 1912, digitalizada pela biblioteca digital da universidade de Coimbra. Vem com um scan da capa original, que mostra o título "Eu" em letras maiúsculas, sem subtítulo. Augusto dos Anjos não achou necessário explicar o que era o poema. Sabia que falava por si só.