O que é e como funciona na prática
A curetagem de aborto, também chamada de curetagem uterina ou D&C (dilatação e curetagem), é um procedimento cirúrgico realizado para remover o conteúdo gestacional do útero. É comum em casos de aborto espontâneo incompleto, interrupção voluntária da gravidez, ou retenção de restos productivos após um parto ou aborto medicamentoso. O procedimento em si é relativamente rápido, mas requer preparo prévio e cuidados pós-operatórios específicos. O processo começa com a avaliação prévia: ultra-sonografia para confirmar a localização intrauterina e a idade gestacional, exames laboratoriais (hemograma, coagulograma, tipagem sanguínea, rastreio de ISTs), e frequentemente profilaxia antibiótica. Se a paciente for Rh negativo, administra-se imunoglobulina anti-D dentro de 72 horas após o procedimento para prevenir isoimunização.
como é feita a curetagem de aborto passo a passo
A dilatação cervical é o primeiro passo operacional. Na maioria dos casos atuais, utiliza-se mifepristona associada a misoprostol por via vaginal ou sublingual nas 12 a 24 horas anteriores para amolecer e dilatar o colo uterino naturalmente, reduzindo o risco de perfuração e lesão cervical. Em urgências, usa-se barras de laminária ou dilatadores sintéticos graduais colocados algumas horas antes. Com o colo dilatado, introduz-se o espéculo vaginal para visualização do colo. Realiza-se antisepsia com povidine ou clorexidina. Em seguida, a uterometria é feita com uma sonda uterina fina, medindo a profundidade da cavidade endometrial — isso orienta o tamanho do Instrumento de Frankel ou cureta apropriado. A curetagem propriamente dita utiliza curetas metálicas (Kümmell) ou, preferencialmente hoje em dia, o aspirato manual endouterino (MAE), que emprega uma seringa acoplada a um cateter flexível para sucção do conteúdo intrauterino. O MAE é consideravelmente menos invasivo que a curetagem curenca tradicional e preserva melhor o endométrio.
Durante o procedimento, o paciente recebe analgesia e sedação, muitas vezes bloqueio do nervo peniena (infiltração cervical com lidocaína 1%) associado a dipirona ou ketorolac. Anestesia geral ou raquidiana também são opções viáveis dependendo da estrutura disponível e do tempo gestacional. Um detalhe prático que muitos não mencionam: o sangramento durante e após o procedimento varia conforme a idade gestacional e a contractilidade uterina. Após a remoção do conteúdo, administra-se oxitocina intravenosa ou intramuscular para promover contração uterina e minimizar hemorragia. O procedimento completo, do início ao fim, leva em média de 10 a 20 minutos em mãos experientes.
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Encontrei uma situação específica no meu trabalho em que uma paciente com septo uterino incompleto apresentou dificuldade de progressão do cateter de aspiração porque a cureta passava por um dos cornos mas capturava apenas parte do material do outro. A solução foi fazer uma curetagem seletiva por cada corno usando cureta curva sob guia ultrassonográfica, o que evitou a necessidade de uma segunda procedimento e reduziu o risco de hiperplasia residual. Sem a orientação por USG, seria fácil perder material no corno não atingido e comprometer o desfecho. Após a curetagem, monitora-se a paciente por pelo menos 2 horas. Os sinais vitais, o volume de sangramento vaginal e a contração do fundo uterino são avaliados periodicamente. Dor tipo cólica menstrual é normal e geralmente controlada com AINEs. Sangramento leve a moderado (semelhante a uma menstruação) pode persistir por até 1 a 2 semanas. Sangramento profuso, febre, mal-estar intenso ou corrimento fétido são sinais de alerta que exigem retorno imediato.
Há pontos importantes que poucos discutem abertamente. Primeiro: a curetagem mecanosa com Kuerner tem risco maior de aderências intrauterinas (síndrome de Asherman) comparada ao MAE. Estudos mostram que o MAE reduz significativamente a incidência de sinequias, especialmente em gestações acima de 12 semanas onde há maior volume de tecido. Segundo: a D&C tradicional ainda é indicada quando há suspeita de mola hidatiforme ou quando se necessita de biópsia endometrial dirigida para avaliar patologia associada, já que o MAE apenas aspira e não permite coleta histológica direta. O principal limite deste procedimento é que ele não remove o conteúdo com 100% de garantia absoluta em todas as anatomias. Casos de gravidês cervical, gravidez ectópica não diagnosticada, ou útero com deformidades congênitas tornam o procedimento arriscado ou impossível via via trans cervical. Nestes cenários, a laparoscopia diagnóstica ou a histeroscopia se fazem necessárias. Além disso, em unidades de saúde pública com recursos limitados, a falta de acesso ao MAE ainda força o uso de curetagem convencional, o que aumenta a morbidade.
Se você está pesquisando sobre o tema para si ou para alguém, o caminho mais seguro é conversar com um profissional de saúde ginecológica para avaliar qual abordagem é mais adequada ao seu caso específico, considerando idade gestacional, histórico clínico e disponibilidade de métodos na sua rede de atendimento.