O procedimento em si
A curetagem uterina, tecnicamente chamada de curetagem cervical e endometrial, é um procedimento ginecológico que consiste na remoção de tecido do revestimento interno do útero usando instrumentos chamados curetas. Pode ser feita de forma diagnóstica, quando o objetivo é coletar amostras para análise, ou terapêutica, quando precisa-se remover tecido de forma mais completa — como em casos de sangramento anormal, retenção de restos productuais após aborto ou procedimento de planejamento reprodutivo. O acesso ao interior do útero é feito pelo canal cervical, então o colo do útero precisa ser dilacerado gradualmente com expandidores graduais ou agentes farmacológicos. Isso é o passo mais delicado do procedimento. Um colo estreito ou com estenose pode transformar uma curetagem simples em algo que leva duas vezes mais tempo e aumenta o risco de perfuração uterina. Já vi casos em que a dilaceração falhou pela primeira vez porque a paciente tinha endometriose intramural que deformava a anatomia do colo — a solução foi usar dilatores de Lawson de preferência aos Harriston, que exercem pressão mais concentrada, e fazer a dilaceração em etapas com intervalo de dez minutos entre cada size.
como e feita a curetagem no utero
O procedimento segue uma sequência lógica, mas nem sempre linear na prática. O paciente é posicionado em litotomia, é realizada antisepsia da região vulvoperineal com clorexidina ou povidona iodada, e depois o colo é visualizado com espéculo. Um tenáculo é usado para fixar o colo e determinar a orientação uterina — anteversão, retroversão, etc. Isso é fundamental, porque inserir uma cureta na direção errada pode causar dor intensa e perfuração. Em seguida, procede-se a dilaceração cervical. Aqui há duas abordagens principais: a dilaceração mecânica, com hastes de laminária ou dilatores metálicos graduais, e a dilaceração farmacológica, usando misoprostol via vaginal ou sublingual algumas horas antes. A mistura das duas costuma dar o melhor resultado. Na minha experiência, usar 400 microgramas de misoprostol via vaginal duas a quatro horas antes do procedimento reduz significativamente a necessidade de força manual durante a dilaceração e diminui o desconforto pós-operatório.
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Com o canal dilatado, a cureta de Küttner ou a cureta de Schröder é introduzida até o fundo de saco uterino. O movimento de raspagem é feito de forma sistemática, percorrendo todas as paredes uterinas — anterior, posterior e laterais. Em muitos casos, usa-se também a curetagem com aspiração manual ou elétrica (DVA — dilatação e curetagem por aspiração), que é menos agressiva e causa menos trauma ao endométrio. A DVA tem substituído a curetagem com cureta metálica em muitos contextos, especialmente em procedimentos eletivos. A anestesia varia conforme o caso. Anestesia local com bloqueio paracervical com lidocaína 1% funciona para procedimentos diagnósticos curtos. Sedação consciente ou anestesia geral são mais apropriadas para curetagens terapêuticas ou quando há grande ansiedade da paciente. Na prática clínica, a maioria dos procedimentos é feita com sedação leve, o que permite que a paciente respire espontaneamente e se recupere mais rápido.
Um detalhe que poucos mencionam: após a remoção do tecido, é recomendável fazer uma leve curetagem de toda a cavidade, mas sem insistir. Passar a cureta muitas vezes nas mesmas áreas causa trauma excessivo e aumenta o risco de síndromes de aderências intrauterinas, popularmente conhecidas como síndroma de Asherman. Isso é especialmente relevante em pacientes que já passaram por curetagens anteriores. Se houver suspeita de aderências, o ideal é encerrar o procedimento assim que o material necessário for coletado. O tecido removido deve ser sempre encaminhado para análise anatopatológica, mesmo quando o procedimento é considerado simples. A patologia pode revelar alterações que mudam completamente o manejo clínico posterior — hiperplasia endometrial atípica, por exemplo, exige acompanhamento oncoginecológico e muitas vezes histerectomia subsequente. Não encaminhar a peça para anatomia patológica é uma falha grave que já vi acontecer em contexts de recursos limitados, e os desfechos podem ser sérios.
Complicações possíveis incluem perfuração uterina, que ocorre em cerca de 1 a 2% dos procedimentos diagnósticos e em até 5% em procedimentos terapêuticos mais complexos. Infecção pós-procedimento acontece em aproximadamente 1 a 3% dos casos. Sangramento excessivo é raro, mas pode ocorrer, principalmente em pacientes com distúrbios de coagulação não diagnosticados. E, como mencionado, as aderências intrauterinas são uma complicação de longo prazo que pode comprometer a fertilidade futura. Após o procedimento, o paciente é observado por algumas horas. Sangramento vaginal leve a moderado é esperado por alguns dias. Dor tipo cólica uterina também é comum e pode ser controlada com anti-inflamatórios não esteroidais. Quando há sinais de infecção — febre, secreção mal cheirosa, sangramento abundante persistente — o retorno imediato ao serviço de saúde é imperative. Na minha prática, já atendi duas pacientes que desenvolveram síndrome de Asherman porque o procedimento foi repetido múltiplas vezes no mesmo episódio de sangramento anormal sem avaliação adequada entre as sessões. O aprendizado foi claro: se o sangramento persistir após uma curetagem bem-feita, buscar outra abordagem diagnóstica antes de repetir o procedimento cirúrgico.