A base que a maioria ensina errado
Muitos professores começam mostrando as colunas, uma debaixo da outra, e pedem para a criança somar unidades com unidades e dezenas com dezenas. Isso funciona na maioria das vezes, mas trava quando aparece o reagrupamento. Eu já vi alunos conseguirem fazer 23 + 45 em dez segundos e depois travarem em 28 + 36 porque não tinham entendido o porquê da troca, só decoraram o procedimento. O problema real é que crianças memorizam o algoritmo vertical sem visualizar quantos objetos estão sendo juntados. Quando chega a hora do dez virar uma dezena, elas esquecem onde colocaram esse novo grupo e erram o resultado. A solução não é mais exercício, é entender o valor posicional antes de escrever qualquer conta.
Como fazer continhas de adição com dezenas e unidades sem confusão
O jeito mais direto é separar os números nas suas partes. Pega o primeiro número, divide em dezenas e unidades. O segundo também. Soma tudo junto e depois junta novamente. Isso funciona porque transforma um problema abstrato em algo concreto que a criança pode manipular com material dourado, palitos, ou até desenhos rápidos no caderno. Vou dar um exemplo prático. Conta 37 mais 25. Separa o 37 em 30 mais 7. Separa o 25 em 20 mais 5. Soma as unidades primeiro: 7 mais 5 dá 12. Aqui é onde a maioria erra. O resultado não é 2. É 12, que significa 1 dezena e 2 unidades. Anota esse 12. Agora soma as dezenas: 30 mais 20 é 50. Soma tudo: 50 mais 12 dá 62.
Se você preferir o método vertical, o processo é o mesmo, só que escrito de forma compacta. Coloca o 37 em cima, o 25 embaixo, alinha as colunas. Começa pelas unidades: 7 mais 5 é 12. Escreve o 2 na coluna das unidades e sobe o 1 para a coluna das dezenas. Esse 1 que sobe não é mágica, é a dezena que sobrou do 12. Depois soma as dezenas com esse carregado: 3 mais 2 mais 1 é 6. Resultado final 62. O detalhe que ninguém enfatiza é a ordem. Sempre começa pela direita, das unidades para as dezenas. Se a criança começar pelas dezenas, vai ter que refazer tudo quando perceber que as unidades deram mais de dez. Isso gera frustração e erro duplo. Eu já corrigi dezenas de cadernos assim.
Um problema real que eu encontrei
Em 2022, eu estava ajudando um aluno do terceiro ano com adições dentro de 100. Ele acertava todas as contas que não precisavam de reagrupamento, mas quando aparecia alguma como 48 mais 35, ele simplesmente somava 8 mais 5 e escrevia 13 na coluna das unidades, ignorando completamente o fato de que 13 unidades precisam virar uma dezena. O resultado dele sempre saía errado, e ele não via o erro. A solução foi parar com o algoritmo vertical por uma semana. Comecei a usar palitos. Enrolei dez palitos soltos num feixe e mostrei que dez unidades nunca ficam soltas no resultado final. Toda vez que ele juntava dez ou mais palitos soltos, tínhamos que transformar em um feixe. Em duas semanas, ele voltou para as contas escritas e não errava mais o carregado. O ganho não foi imediato, mas foi permanente.
O que quase ninguém explica sobre esse conteúdo
Uma coisa contra-intuitiva é que o reagrupamento não é uma regra arbitrária do sistema decimal. É uma consequência direta do fato de termos apenas dez algarismos. Se tivéssemos onze algarismos, não precisaríamos reagrupar tão frequentemente. A criança precisa entender que o sistema que ela está usando impõe essa limitação, não que o professor inventou uma regra chata. Outro ponto que passa despercebido é a relação com a subtração. Quem domina a adição com dezenas e unidades consegue entender a subtração com empréstimo muito mais rápido, porque é o mesmo processo inverso. Se o aluno travou na adição, a subtração vai ser ainda pior. Recomendo consolidar bem a adição antes de avançar.
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Quando esse método não funciona
O método de separar em dezenas e unidades funciona bem para números até 99. Quando os números passam de 100, a coisa muda de figura porque entra a centena, e a criança precisa lidar com três posições em vez de duas. Alguns alunos que aprenderam só com duas colunas travam porque não conseguem transferir o raciocínio para três. Nesse caso, o ideal é continuar usando material concreto e ir aumentando a complexidade gradualmente, não pular direto para contas grandes escritas. Também há casos em que o algoritmo vertical, mesmo explicado, não faz sentido para a criança após vários meses de prática. Isso geralmente indica que a base de valor posicional não está sólida. Nesses casos, voltar para materiais manipuláveis resolve mais rápido do que insistir em exercícios repetitivos. Passei meses tentando fazer um aluno decorar o procedimento e só funcionou quando voltei para os blocos multibase.
Exercícios para praticar
Para treinar continhas de adição com dezenas e unidades, comece com contas que não exigem reagrupamento, como 24 mais 31, 42 mais 17, 53 mais 26. Isso fixa o alinhamento de colunas e a ideia de somar partes separadas. Depois inclua progressivamente contas com reagrupamento, começando por aquelas em que as unidades somam entre 10 e 18, como 38 mais 15, 47 mais 26, 59 mais 34. Por fim, misture os dois tipos em uma mesma lista para treinar ação rápida de quando o reagrupamento é necessário. Existem materiais impressos e planilhas online que organizam esses exercícios por nível de dificuldade. Procure por recursos que mostrem o espaço para o reagrupamento, com um quadradinho pequeno acima da coluna das dezenas para a criança escrever o dígito carregado. Isso ajuda a visualização e reduz erros por esquecimento.
Erros comuns e como corrigir
O erro mais frequente é esquecer de somar o dígito carregado na coluna das dezenas. A criança some as unidades, vê que deu 12, escreve o 2 e continua somando apenas as dezenas originais. O resultado sai errada por exatamente 10. A correção é simples: pedir para a criança sublinhar o dígito que subiu e circundá-lo quando for somar a coluna das dezenas. Isso força a atenção no detalhe que normalmente pula. O segundo erro comum é escrever o resultado das unidades errado mesmo quando não há reagrupamento. Isso acontece por falta de domínio das combinações básicas de adição. Se a criança demora mais de dois segundos para dizer que 7 mais 5 é 12, o problema não é o algoritmo, é a memória factual. Nesse caso, vale a pena fazer treino diário de combinações até dez por alguns minutos, sem relação com o algoritmo.
Um terceiro erro, mais sutil, é inverter a ordem das colunas na hora de escrever. A criança coloca as unidades na coluna das dezenas e vice-versa. Isso geralmente ocorre quando o material didático não deixa claro o alinhamento correto. Recomendo usar cadernos com colunas já traçadas ou pauta quadriculada para forçar o alinhamento correto desde o início.
Conexão com o dia a dia
Essa habilidade aparece em situações reais o tempo todo. Somar preços, calcular tempo, contar pessoas em um grupo. Quando a criança entende que 37 mais 25 é basicamente juntar 37 coisas com 25 coisas, o conteúdo deixa de ser abstrato. Eu costumo usar exemplos como quantidade de brinquedos, páginas lidas de um livro, ou dinheiro guardado. Isso mantém o interesse e mostra que o conteúdo tem utilidade imediata.
Próximos passos
Depois de dominar adição com dezenas e unidades sem reagrupamento e com reagrupamento, o caminho natural é a subtração com empréstimo, depois adição com números de três algarismos, e em seguida a multiplicação. A base de valor posicional é o mesmo alicerce para tudo isso. Se houver dúvidas nessa etapa, os problemas vão se acumular nas etapas seguintes. O recomendado é garantir domínio completo antes de avançar. Melhor gastar duas semanas extras consolidando do que seguir adiante com falhas que vão dificultar tudo o que vem depois. A paciencia nessa fase paga juros compostos ao longo do aprendizado matemático.