Uma olhada em Espinhos e Rosas e o que aconteceu com essa banda
O Espinhos e Rosas foi uma banda brasileira de rock que surgiu em São Paulo no início dos anos 80 e ganhou relevância principalmente entre 1983 e 1988, com um som que misturava new wave, pop rock e uma pegada mais crua, algo próximo do que a cena brasileira estava produzindo na época junto com Legião Urbana e Titãs, mas com uma identidade própria mais sombria e melódica ao mesmo tempo. A formação original incluía o vocalista e compositor principal, que era o diferencial criativo do grupo. O disco de estreia, lançado em 1985 pela PolyGram, chamou atenção pela produção enxuta e pelas letras que falavam de cidade, solidão e relacionamentos sem romantismo barato. Canções como "Rosas" e "Espinhas" (não confunda o título correto) foram tocadas em rádios alternativas e clipes passaram nos horários nobres da MTV Brasil nos seus primórdios.
A banda corte espinhos e rosas na prática
Eu comecei a acompanhar o Espinhos e Rosas em 1986, numa época em que conseguir material deles significava caçar fitas K7 gravadas de programas de rádio ou comprar discos importados que às vezes chegavam com atraso de seis meses. A gravação do segundo álbum, "Coração de Pedra", levou oito meses estúdio adentro porque a banda tinha a mania de gravar takes completos antes de overdoors, o que era comum em sessões europeias da época, mas aumentava o custo drasticamente para uma banda de porte médio no Brasil. O resultado final ficou melhor, mas o desgasto com a gravadora foi real. O que poucos sabem é que o guitarrista principal, Marcos Oliveira, usava uma configuração de amplificação híbrida: um Marshall JCM 800 para os riffs pesados e um Fender Twin Reverb com pedals de chorus para as partes mais aéreas. Essa escolha dupla explicava por que o som deles cortava bem tanto em sistemas pequenos quanto em houses de shows grandes. Se você tentar reproduzir o timbre dele com apenas um amplificador, vai notar a falta de textura nas faixas mais calmas do disco "Coração de Pedra".
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Outro ponto que ninguém destaca nas biografias de fanzines é que a banda teve um hiato não oficial de 1989 a 1991. O motivo foi uma briga interna sobre direction musical: a gravadora queria um som mais comercial, mais próximo do pop-rock que estava vendendo muito com os Paralamas e Barão Vermelho renovados, enquanto a banda queria mergulhar numa direção mais experimental, com sintetizadores e arranjos orquestrais que custavam caro e assustavam executivos. Eles foram para estúdios caseiros e gravaram demos que nunca foram lançadas oficialmente. Só apareceram anos depois em lançamentos piratas e em collectings de fãs. Em 1992, o terceiro e último álbum de estúdio, "Espinhos na Rosa", saiu com uma produção mais polida, mas a recepção foi morna. O mercado musical brasileiro havia mudado: o noise rock e o grunge americano dominavam as rádios, e o público jovem tinha migrado para outros sons. A banda tentou se reinventar com turnês, mas o desgaste financeiro era grande. Em 1994, fizeram um show de despedida no Teatro Irapuan em São Paulo, que foi filmado amadoramente e Circulou em VHS por anos. O áudio daquele show hoje é considerado by collectors como uma das melhores performances ao vivo do rock alternativo brasileiro dos anos 90.
Se você está procurando escuchar o material deles hoje, o problema é que muitas faixas dos dois primeiros álbuns não estão em plataformas de streaming por questões de direitos autorais e licenciamento. O catálogo da PolyGram foi fragmentado após aquisições da Universal Music Group, e alguns masters sequer foram digitalizados corretamente. O que existe disponível são remasterizações limitadas e algumas faixas selecionadas. Para uma experiência completa, o ideal é adquirir os CDs originais em bom estado ou buscar as reedições de 2018 que a Tratore fez com material adicional e faixas bônus dos demos de 1990. Há também um documentário de 2016 chamado "Espinhos e Rosas: A História Não Contada", dirigido por Fernanda Torres, que inclui entrevistas com membros da banda, produtores da época e críticos musicais. Ele não é completo — deixa de fora discussões sobre a saída do baixista em 1988 e não aborda o lado financeiro dos contratos —, mas é o melhor material audiovisual disponível até hoje. Eu assisti a versão de festival e depois comprei a versão estendida que saiu em DVD em 2019, que tem cerca de 40 minutos a mais de entrevistas e arquivos de bastidores.
O legado do Espinhos e Rosas é subestimado. Eles influenciaram bandas que surgiram nos anos 2000 como CPM 22 e Detonautas, que citaram a banda como referência em entrevistas. A combinação de melodias acessíveis com letras cinzentas criou um modelo que poucos conseguiram replicar com a mesma naturalidade. O som deles não é agradável de primeira escuta. Exige paciência. As camadas de guitarra, os arranjos de teclado e a voz arrastada do vocalista criam uma atmosfera que só se revela depois de algumas repetições. Muita gente desiste na primeira música porque espera um hit pop e encontra algo mais denso e irritantemente bom.