Dom Casmurro Em Quadrinhos - Dom Casmurro: em quadrinhos
Dom Casmurro: em quadrinhos

Como fazer quadrinhos do Dom Casmurro — sem enrolação

Li o livro em 2012, na faculdade. Sempre achei que Capitu tinha culpa e depois vi gente jurando o contrário. Em 2014 comecei a desenhar fanzines semiprodissionais, então essa conversa de adaptar prosa para quadrinho eu já tinha experiência de primeira mão, mas de uma forma caseira, nada profissional mesmo. Aqui vai o que eu fiz e o que eu aprendi.

dom casmurro em quadrinhos — o caminho mais prático que eu encontrei

Não existe uma receita oficial. Machado não facilitou pra quem quer colocar isso no papel quadriculado, porque a obra inteira depende de narração em primeira pessoa, aquela do Bentinho desconfiado, e transformar isso em fala de balão ou descrição visual exige trabalho de adaptação, não só tradução de texto. A minha solução foi simples: dividir o processo em duas fases distintas. Primeira fase, eu escolho os trechos que realmente precisam aparecer. Segunda fase, eu desenho com base na emoção do personagem, não na ação física. Isso é o pulo do gato, ou pelo menos foi o que funcionou pra mim.

Um problema que eu tive pessoalmente foi com a cena do olhar de Capitu. Todo mundo fala do olhar de cigano, daquela coisa indecifrável que o narrador tanto gosta de mencionar. Eu tentei desenhar o olhar de forma literal num primeiro rascunho, e ficou terrível. A solução foi usar enquadramento em close-up com sombra no rosto dela, deixando os olhos praticamente fora de foco, e colocar o Bentinho respondendo com balões de pensamento em vez de fala falada. Funcionou melhor do que qualquer tentativa de representar o olhar de Capitu de forma direta. Outra coisa que eu aprendi na marra: não tente colocar todo o texto original nos balões. O livro tem aproximadamente 250 páginas em edição padrão, e se você for traduzir cada parágrafo pros quadrinhos, vai levar uns 6 meses pros primeiros 20 páginas desenhadas. Minha estimativa é que um quadrinho de Dom Casmurro bem-feito, com adaptação cuidadosa, leva de 3 a 5 dias por página, dependendo do seu nível de detalhe.

Você pode usar ferramentas como Clip Studio Paint, Procreate ou até lápis mesmo, se preferir algo analógico. Eu uso Procreate no iPad, porque a mobilidade me permite rabiscar ideas de composição em qualquer lugar, mas o processo final de limpeza e lettering eu faço no computador, porque a precisão é diferente.

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O que funciona na prática

O segredo não é ser fiel ao texto, é ser fiel à atmosfera. Machado escreve com ironia fina, com aquela voz de narrador que duvida de tudo, e se você tentar representar isso visualmente de forma literal, vai perder a essência. A solução que eu encontrei foi usar técnicas de composição cinematográfica, como planos sequenciais em slow motion, cortes secos em momentos de tensão, e uso de cor limitada, uma paleta quase sépia pra dar a sensação de memória, de passado, que o livro tanto transmite. Um detalhe que poucos notam: o Dom Casmurro não é uma história de ação. É uma história de dúvida, de ciúme, de memória falha. Então o desafio do quadrinista não é desenhar cenas dinâmicas, é desenhar silêncios, espaços em branco, balões vazios que falam mais do que qualquer texto poderia dizer. Isso é o que eu descobri depois de umas 30 páginas frustradas.

Outra coisa: a relação de Capitu com o passado é ambígua. Ela não é vilã, não é vítima. Ela é isso tudo e mais nada. E representar essa ambiguidade nos quadrinhos exige técnicas de narrativa visual, como flashbacks em tom diferente, uso de moldura dentro da moldura, e mudanças sutis de proporção de personagens ao longo da história. Eu usei uma técnica que me deu certo: desenhar Capitu sempre num ângulo ligeiramente mais alto do que o Bentinho, pra transmitir a sensação de poder dela sobre o narrador, mesmo quando ela está fisicamente menor na cena.

Pegadinhas que você precisa saber

Não recomendo começar pela cena do adultério. É tentador, porque é o clímax da história, mas o problema é que sem o contexto emocional da dúvida do Bentinho, a cena perde todo o impacto. A solução é construir a história em ordem cronológica, com flashbacks estratégicos, e deixar o revelação do adultério pra bem no final, usando uma técnica de narrativa não-linear que o próprio Machado já empregava no livro. Outro erro comum: tentar traduzir as metáforas de Machado literalmente pros quadrinhos. Ele usa comparações muito específicas, como aquela do olho de cigana, e se você desenhar um olho de cigano de fato, vai parecer absurdo. A solução é usar simbolismo visual, cores diferentes pra representar o estado emocional do narrador, e evitar ilustrações literais dos recursos figurativos do texto.

Se você não tem experiência prévia com quadrinhos, recomendo começar com adaptações menores, como contos do Machado, antes de partir pros romances. A curva de aprendizado é íngreme, mas compensa. Um consejo prático: reserve pelo menos 2 semanas pros esboços, 1 semana pros traços finais, e 1 semana pro lettering e acabamento. Isso é realista, considerando que uma página bem-feita de quadrinho literário leva em média 3 a 4 horas de trabalho ativo, dependendo da sua velocidade. Se o objetivo é publicação independente, considere plataformas como Webtoon, Tapas ou até PDF gratuito pros primeiros capítulos. O mercado de quadrinhos brasileiros de adaptação literária ainda é nicho, mas crescente. Não espere lucro rápido, porque o tempo de produção é alto, mas a satisfação criativa é.

Uma última coisa: não tenha medo de fazer escolhas ousadas de adaptação. Eu mudei a ordem de alguns capítulos, simplifiquei personagens secundários, e até alterei o final num fanzine meu de 2016. O resultado foi polêmico, mas funcionou. A obra de Machado se presta a releituras, e isso é o que torna o projeto de dom casmurro em quadrinhos tão interessante pros cartunistas que querem contribuir com a cultura brasileira de uma forma pessoal, mesmo que amadora no início.