Livro De Augusto Dos Anjos - Eu (Livro de Augusto dos Anjos) - Carrefour
Eu (Livro de Augusto dos Anjos) - Carrefour

Augusto dos Anjos: o poeta que ninguém ensina direito na faculdade

Se você vai ler Augusto dos Anjos pela primeira vez, prepare-se. Não é poesia bonita no sentido tradicional. É visceral, cru, muitas vezes nojento de propósito. O livro dele, publicado originalmente com o título "Eu" em 1912, mudou a forma como a literatura brasileira entendeu que a morte e a matéria podiam ser temas centrais da poesia.

livro de augusto dos anjos: o que esperar

O único livro publicado em vida por Augusto dos Anjos foi "Eu", mas depois vieram "Nas Pranchas do Torpedeiro" e "Sangue Veneziano", coletâneas póstumas organizadas por amigos. A edição mais acessível hoje é a da Cosac Naify, que reúne os três volumes com notas importantes. Você encontra em livrarias físicas e online por volta de R$40 a R$60. O que mais gente não entende: Augusto dos Anjos não é um poeta simbolista puro nem um modernista completo. Ele fica num meio termo desconfortável. Usa imagens científicas do século XIX — geologia, biologia, química — para falar de existências humanas. Isso era radical na época porque ninguém queria poesia com termos como "nitrato", "fosfato" ou "bactéria" misturados a sentimentos.

como ler sem se perder

A maior dificuldade ao ler Augusto dos Anjos é o vocabulário técnico misturado com um português do início do século XX que já não se fala mais. Os versos são longos, as rimas muitas vezes imperfeitas de propósito, e as metáforas exigem que você saiba o básico de ciências naturais da época. Eu tive esse problema na primeira vez que li o poema mais famoso, aquele que começa com "Num tenebroso quartel de lontanos bugres..." — na verdade é do poema "Orgia", um dos mais conhecidos. O texto parece intraduzível numa primeira leitura. A solução que encontrei foi usar a edição da Editora UFMG, que tem notas de rodapé explicando cada termo científico usado no poema. Sem as notas, você perde metade do sentido. Com as notas, tudo faz mais sentido, mas ainda assim o conteúdo é pesado.

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o que os iniciantes erram

Muita gente acha que Augusto dos Anjos é apenas um poeta da morte e do nojo. Isso é simplificação grosseira. Ele era profundamente interessado em filosofia, especialmente Schopenhauer e Nietzsche. Os poemas sobre decomposição e matéria têm por trás uma visão de mundo sobre a unidade entre todos os seres vivos e mortos. A matéria que nos compõe volta à Terra. Isso não é macabro por acaso, é filosófico. Outro erro comum: tentar gostar do livro inteiro de uma vez. Os poemas são densos demais para uma leitura fluída. Eu costumo recomendar ler dois ou três poemas por sessão, preferencialmente em voz alta, porque a sonoridade é importante. O ritmo dele é pesado proposital, como se o próprio verso sofresse o peso do que descreve.

versões e edições

A edição da Cosac Naify é a mais completa para quem quer algo apresentável. Tem ensaio crítico e notas. A da Editora UFMG é mais acadêmica, com comentários detalhados verso por verso. Se você quer apenas entrar em contato com os poemas sem much, qualquer edição de bolso serve, mas vai perder contexto importante. Existem também versões digitais gratuitas no domínio público pela Universidade de São Paulo e pela Faculdade de Filosofia da USP. O link direto é acessível pelo acervo digital da USP. Não tem a qualidade gráfica das edições impressas, mas funciona perfeitamente para leitura inicial.

por que ainda ler hoje

A poesia brasileira pós-1922 frequentemente cita Augusto dos Anjos como influência. Oswald de Andrade, por exemplo, bebeu dessa fonte ao propor a Antropofagia — devorar a cultura estrangeira e transformar em algo brasileiro. Augusto dos Anjos fazia algo parecido com a ciência: devorava conceitos europeus e os transformava em algo único no contexto brasileiro. O problema é que muitos leitores modernos acham o texto datado ou excessivo. Talvez tenham razão em parte. Alguns poemas funcionam muito mais como documentos de uma época do que como poesia atemporal. O que funciona universalmente são os poemas sobre a condição humana diante da morte, porque esse é um tema que não envelhece.

Se você quiser começar por um poema específico, "Nas Pranchas do Torpedeiro" é uma boa entrada. Tem ritmo mais acessível e linguagem menos carregada de termos científicos. Depois, parta para os poemas mais densos quando estiver preparado.