Livros De Robert Louis Stevenson - Livro A Ilha do Tesouro Robert Louis Stevenson - Livros de Literatura ...
Livro A Ilha do Tesouro Robert Louis Stevenson - Livros de Literatura ...

Uma visão prática sobre a obra de Stevenson

Quando se fala em livros de robert louis stevenson, a maioria das pessoas para imediatamente em A Ilha do Tesouro e O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Isso é compreensível. São os títulos que todo mundo conhece. Mas ler apenas esses dois e achar que conhece o autor é como visitar Paris e só ter visto a Torre Eiffel. Stevenson tinha camadas que a escola raramente mostra.

Como escolher entre os livros de robert louis stevenson mais relevantes

O problema que eu vejo com frequência é o seguinte: alguém quer mergulhar na obra de Stevenson, abre uma lista genérica na internet e acaba lendo O Tesouro de Francis Drake, um livro juvenil bem competente mas que não representa nem de longe a potência dele. Isso gera frustração. O caminho mais eficiente é dividirmos a produção dele por faixas de maturidade temática e, a partir daí, montar uma ordem de leitura que faça sentido. Eu costumo recomendar começar por A Flota do Ouro (The Golden Age). Não porque seja seu romance mais célebre, mas porque nele estão sementes de tudo o que viria depois. A tensão entre a inocência infantil e a crueldade adulta que ele vai explodir em O Médico dos Mares já aparece aqui, ainda que embrionária. Li pela primeira vez aos dezenove e demorei três semanas para terminar. Não por dificuldade, mas porque a prosa exige paciência. Stevenson escreve devagar de propósito. Cada parágrafo carrega informação que o primeiro chute ignora.

Depois viria O Tesouro de piratas, seguido naturalmente por O Médico dos Mares (Dr. Jekyll and Mr. Hyde). Até aí o roteiro é óbvio. O pulo que quase ninguém dá é entrar em La Flèche d'Or ou nos contos de Uma seleção de fábulas (Fables) antes de qualquer biografia ou ensaio crítico sobre o autor. A razão é técnica: Stevenson era, antes de qualquer coisa, um contista. Seu formato curto permite ver o maquinário da escrita funcionando sem o disfarce de uma trama longa. Em The Black Arrow, por exemplo, você vê a construção de tensão que ele aplicaria décadas depois em Dr. Jekyll, só que num contexto de aventura histórica inglesa. Os dois textos conversam entre si, mas essa conexão é invisível se você os ler isoladamente. Um detalhe prático que pouca gente leva em conta: a qualidade das traduções brasileiras varia absurdamente. O Médico dos Mares tem pelo menos sete versões diferentes à disposição no mercado, e pelo menos três delas são péssimas. A tradução da Editora Martin Claret (2005) me pareceu a mais respeitosa do tom original, mas a da Cia. das Letrinhas também se sai bem. Já encontrei edições onde o nome Jekyll foi trocado por uma variação inventada que quebra o jogo fonético que Stevenson construiu com o sobrenome Hyde (que em inglês soa como "hide", esconder). Isso muda completamente a leitura. Vale conferir a nota de tradução sempre que for comprar. Procure edições com prefácio ou aparato crítico. Stevenson ganhou muito com comentários bem feitos e sofreu demais com prefácios que tentam "explicar" o simbolismo dele como se fosse um enigma de children's book.

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Se o objetivo for apenas entretenimento, A Ilha do Tesouro resolve. Se o objetivo for entender o que Stevenson fazia de verdade, o caminho mais direto passa por Virginibus Puerisque, uma coletânea de ensaios que muitos consideram subestimada. Nela ele discute narrativa, moralidade, viagem e o ofício de escrever. É denso, às vezes chato, mas é onde se encontra a versão mais nua do autor. Eu li esse volume em duas oportunidades. Na primeira, abandonei no capítulo sobre religião. Na segunda, completei em cinco dias. A diferença foi ter lido primeiro a ficção e já conhecido o terreno. Os livros menos conhecidos merecem menção por um motivo específico: eles revelam padrões. The Master of Ballantrae (O Mestre de Ballantrae) é talvez o trabalho mais sombrio e psicologicamente preciso de Stevenson. Dois irmãos. Ódio fratricida. Geopolítica escocesa disfarçada de drama doméstico. Foi escrito numa fase em que a saúde dele já estava precária e a escrita, por isso, ganhou uma cadência mais áspera. Muitos leitores reclamam que o final é abrupto. Na verdade, Stevenson já havia entregue tudo o que pretendia. O que alguns chamam de inacabado é apenas a decisão de não amarrar pontas que nunca foram desatadas dentro da lógica do livro.

Outro texto que recebe atenção equivocada é Weir of Hermiston. Ele ficou inacabado na morte do autor, sim. Mas o fragmento que resta contém uma das cenas de sedução mais bem construídas da literatura britânica do século XIX. Stevenson usa uma técnica chamada free indirect discourse de maneira que o narrador oscila entre a consciência do personagem e a voz onisciente sem avisar o leitor. Isso exige concentração. Quem lê passivamente acha que a prosa está confusa. Quem lê devagar percebe que a confusão é proposital: é a sensação de quem está sendo observado sem saber por quem. Para quem quer apenas uma lista prática, aqui vai:

Uma observação final que não aparece em listas comuns: Stevenson escreveu grande parte da sua obra madura fora da Inglaterra. Viveu no Taiti, na Samoa, na costa africana. Isso não é um detalhe biográfico opcional. A sensação de desenraizamento que permeia seus textos mais tardios tem origem direta nessas décadas de moradia no Pacífico. The Ebb-Tide (A Maré Baixa), escrito com Lloyd Osbourne, é um dos poucos romances da época em que a colonização é mostrada como podridão moral, não como façanha. Leitores que esperam aventuras exóticas ficam desapontados. Leitores que entendem o contexto acham o livro desconfortavelmente atual. Se você tiver disponibilidade para ler apenas dois livros, escolha A Ilha do Tesouro e O Mestre de Ballantrae. São as duas pontas da produção dele: uma voltada ao público mais novo, outra totalmente dirigida a adultos. Juntas, elas cobrem o espectro inteiro. Qualquer coisa entre esses dois polos é refinamento, não descoberta.