Musicas Do Boi De Mamão - Conheça a trajetória do Grupo Folclórico Boi de Mamão, de Jaraguá do ...
Conheça a trajetória do Grupo Folclórico Boi de Mamão, de Jaraguá do ...

O repertório sonoro do boi de mamão catarinense

A tradição do boi de mamão em Santa Catarina gira em torno de um conjunto instrumental muito específico. A base é formada por sanfona, reco-reco, triângulo e tambor. Cada região do estado tem pequenas variações no repertório e na forma de tocar, mas a estrutura harmônica e rítmica mantém traços reconhecíveis. As músicas são cantadas em roda ou durante o desfiles pelas ruas, e o ritmo mais comum é o sanfoneiro que marca o andamento com acordes de tônica e dominante, alternando de forma previsível mas eficaz para mantener a energia do grupo. Eu passei cerca de três anos acompanhando grupos diferentes pelo interior catarinense — Lages, São Joaquim, Blumenau, Jaraguá do Sul — e posso dizer que a primeira lição prática é: não tente improvisar na hora. O sanfoneiro que toca para boi precisa saber o repertório de cor, porque o líder do boi (o "patrão" ou "comandante") dá ordens verbais durante a execução e o músico precisa responder imediatamente mudando de música ou de andamento. Já vi sanfonistas travarem numa apresentação em Timbó porque o comandou trocou de direção sem aviso prévio e o tocador não sabia qual canção vinha a seguir. A solução que encontrei foi simples: criar um caderno com a sequência padrão de cada grupo e treinar com o líder antes de qualquer apresentação.

Como montar seu repertório de musicas do boi de mamão

O primeiro passo é identificar qual linha você quer seguir. Existem basicamente duas vertentes principais: a tradição das áreas de colonização alemã e italiana, onde a sanfona diatônica domina, e a vertente mais mista do vale do Itajaí, onde se ouve também viola e percussão variada. Para começar, recomendo focar numa vertente só. Tentar abraçar tudo desde o início gera confusão harmônica e o som fica sem identidade. O repertório essencial inclui canções como "O Boi já nasceu", "Chama o boi", "Santa Maria", "São João", "Bumba meu boi", e variações regionais como "Boi da meia-noite" e "Boi de mamão". Cada uma tem sua função específica. Algumas são para a entrada do animal, outras para a briga, outras para a morte e ressurreição do boi — o momento culminante da apresentação. Saber qual música toca em qual momento é tão importante quanto saber tocar a música em si.

Aqui vai um insight que poucos mencionam: a maioria dos iniciantes aprende as músicas decorando a letra e a melodia, mas o que realmente diferencia um tocador experiente é o domínio da batida da sanfona. O padrão básico é uma batida de valsa ou xote em compasso 2/4 ou 4/4, com a mão esquerda marcando o baixo na batida forte e a direita fazendo a harmonia. O reco-reco entra sincronizado com o terceiro tempo, e o triângulo faz os contratempos. Se você tentar tocar rápido sem dominar a batida lenta primeiro, o conjunto vai desandrar em menos de dois minutos.

A dinâmica prática das apresentações

Uma apresentação completa de boi de mamão dura entre 40 minutos e 2 horas, dependendo do evento. O grupo inteiro se locomove durante a execução — não é um espetáculo parado em palco. Isso significa que os músicos precisam tocar enquanto caminham, sobreviver ao calor de julho, lidar com público que conversa alto durante as canções mais calmas, e ajustar o volume conforme a distância do grupo se afast ou se aproxima. Nada disso aparece nos partituras. O problema mais comum que eu observo é a questão do tempo. Grupos amadores tendem a acelerar as músicas conforme a emoção do momento aumenta. O resultado é que a apresentação toda fica corrida, cansa os cantores e perde a beleza das letras. Eu resolvi isso num grupo que eu tocava em Blumenau impondo uma regra interna: o sanfoneiro nunca acelera. Quem quer aumentar a intensidade aumenta o volume e a força da batida, não a velocidade. Funcionou. A apresentação ficou mais consistente e os cantores agradeceram.

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Outro ponto prática é a escolha dos instrumentistas. Você precisa de pelo menos quatro pessoas para formar um núcleo básico funcional: sanfona, reco-reco, triângulo e tambor. Pessoas a mais são benéficas mas não essenciais. O problema é que encontrar quatro pessoas que já tocam junto é raro. A maioria dos grupos se forma por amizade ou vizinhança, não por competência técnica. Isso gera lacunas que só se resolvem com ensaio constante — recomendo pelo menos dois ensaios por semana nas quatro semanas anteriores a qualquer apresentação importante.

Dificuldades e limitações que ninguém conta

O boi de mamão é uma tradição viva mas enfrenta desafios reais. O principal é a perda de transmissores de conhecimento. Os sanfoneiros mais experientes estão envelhecendo e muitos não têm sucessores. Grupos que dependem de um único tocador de sanfona estão num risco constante: se essa pessoa adoecer ou desistir, o grupo inteiro para. A solução que vejo funcionando em algumas cidades é a formação de núcleos jovens com acompanhamento de músicos mais velhos, mas isso exige investimento de tempo e recursos que nem todas as comunidades têm. Outra limitação prática é o custo dos instrumentos. Uma sanfona diatônica de qualidade para uso em folia custa entre 800 e 2500 reais, dependendo da marca e do número de botões. Para famílias de baixa renda, isso é uma barreira significativa. Reco-reco e triângulo são mais acessíveis, mas ainda assim representam um gasto. Alguns grupos resolvem compartilhando instrumentos ou buscando doações de comércio local, mas isso nem sempre é viável.

Existe ainda a questão da contextualização cultural. Muitas vezes as músicas são cantadas em português antigo ou com expressões regionais que as novas gerações não compreendem plenamente. Isso não impede a execução mas empobrece a interpretação. Li sobre estudos que recomendam trabalhar a explicação das letras com os jovens integrantes antes de ensaiar as partes musicais, e a experiência confirma que isso faz diferença na seriedade da apresentação.

Onde encontrar material de estudo

O acervo do Centro de Artes da Universidade Federal de Santa Catarina em Florianópolis guarda gravações históricas de grupos de boi de mamão a partir dos anos 1970. Essas gravações são valiosas porque permitem ouvir como os grupos tocavam antigamente, com diferenças significativas em relação aos padrões atuais. A biblioteca pública de Lages também possui coleções de partituras e gravações caseiras que podem ser consultadas mediante agendamento. Para quem busca gravações contemporâneas, os vídeos do Festival Nacional de Boi de Mamão, realizado anualmente em Blumenau, estão disponíveis em plataformas de vídeo. Assistir a essas apresentações com atenção aos detalhes instrumentais — especialmente à forma como o sanfoneiro marca as transições entre músicas — é um dos melhores exercícios de aprendizado disponíveis. Diferente de ler sobre, ver um profissional executando o repertório completo numa situação real mostra nuances que a teoria não captura.

Não existe um método único ou um livro definitivo sobre o tema. O conhecimento se transmite principalmente pela prática acompanhada e pela escuta atenta. Quem quer se aprofundar nessa tradição precisa estar disposto a dedicar tempo à imersão no ambiente cultural onde ela existe, conversando com músicos, participando de ensaios e assistindo a apresentações sempre que possível. O repertório de musicas do boi de mamão não se aprende sozinho num quarto. Ele se aprende ouvindo, repetindo e errando junto com quem já sabe tocar.