Entendendo a corrente de partida de transformadores
Quando você liga um transformador na rede, existe aquele momento em que ele puxa uma corrente muito alta por algumas oscilações do ciclo. Isso é normal e se chama corrente de inrush. Um transformador pequeno pode puxar de 8 a 15 vezes a corrente nominal durante essa etapa inicial. Um transformador maior, como os usados em residências ou comércios, pode levar isso ainda mais longe. O problema é que muita gente não espera por isso e acaba dimensionando disjuntores e cabeamentos de forma errada, gerando disparos desnecessários ou até problemas mais sérios.Por que transformador puxa muita energia na partida
A razão técnica é simples, mas o efeito prático é subestimado. O núcleo de ferro do transformador tem uma permeabilidade magnética que varia conforme o nível de saturação. Se no instante exato em que a chave é fechada o fluxo remanescente no núcleo estiver na direção oposta ao fluxo que a rede vai impor, o transformador entra em saturação profunda. Isso faz a indutância cair drasticamente e a corrente subir para valores muito altos. O pico dura apenas alguns ciclos, mas é suficiente para fazer disjuntores biparem e fusíveis abriram. Já vi casos em que o transformador estava perfeito, mas o disjuntor do quadro geral não suportava o pico de partida e desarmava todo o circuito. Eu tive um caso específico com um transformador de 75 kVA alimentando um pequeno ateliê. O cliente tinha instalado um disjuntor magnético de 125 amperes tipo D, achando que era o suficiente. Na primeira religação após uma manutenção, o disjuntor disparou imediatamente. A corrente de inrush daquele transformador, considerando a saturação assimétrica, chegou a quase 2000 amperes por cerca de 0,05 segundos. O disjuntor tipo D foi projetado para suportar picohos maiores, mas naquele ponto ele simplesmente não aguentou. Troquei por um disjuntor de 160 amperes tipo D e adicionei um temporizador de retardo de 2 segundos no circuito de comando. Resolvido. A lição foi: não adianta só aumentar a corrente nominal do disjuntor. O tipo e o tempo de resposta importam tanto quanto a amperagem.Outro ponto que poucas pessoas consideram é a sequência de religação. Se você tem vários transformadores no mesmo barramento e religa todos ao mesmo tempo, as correntes de inrush se somam. Num projeto real que acompanhei, três transformadores de 150 kVA foram religados simultaneamente após uma queda de energia. A corrente total de pico passou de 5000 amperes e derrubou o disjuntor principal do setor. A solução foi implementar um sistema de religação escalonada com intervalos de 3 segundos entre cada transformador. Custo baixo, resultado eficaz.
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Como calcular e dimensionar corretamente
Para evitar problema, você precisa entender dois conceitos: a corrente nominal do transformador e a corrente de pico de inrush esperada. A corrente nominal se calcula dividindo a potência aparente pela tensão e pela raiz quadrada de 3, no caso trifásico. Um transformador de 75 kVA em 440 V trifásico tem corrente nominal de aproximadamente 98 amperes. A corrente de inrush típica fica entre 8 e 12 vezes esse valor, dependendo do fator de retenção magnética do núcleo e do instante de fechamento da chave. O dimensionamento do disjuntor de proteção deve levar em conta que ele não pode disparar com a corrente de partida. Disjuntores termomagnéticos tipo D são os mais indicados para cargas com transformadores porque têm curva magnética mais lenta e suportam picos maiores. Para o exemplo acima, um disjuntor de 125 amperes tipo D seria razoável, mas com margem de segurança. Eu recomendo ir para 150 ou 160 amperes, sempre verificando a tabela do fabricante sobre a capacidade de suportar picos de até 20 vezes a corrente nominal por ciclos curtos.Cabeamento também precisa ser verificado. Um cabo que suporta 100 amperes em regime contínuo pode superaquecer se for submetido repetidamente a picos de inrush sem ventilação adequada. Em quadros com muitos circuitos próximos, o efeito térmico acumulado é real. Use cabos com seção um pouco maior do que o estritamente necessário para a carga nominal. Isso não custa muito a mais e evita dores de cabeça.